Ilda Maria Costa Brasil, Celeiro da Alma

"Sonhar é acordar-se para dentro." Mario Quintana

Textos


 

LIBERDADE DO VENTO

 

Ela foi abandonada pelo marido, quando disse que estava grávida de gêmeos. Ele pediu que ela abortasse, seria uma despesa muito grande sustentar quatro pessoas e todas as despesas que duas crianças iriam provocar. Ela se preparou para receber os filhos da melhor maneira possível, trabalhou até a última semana da gravidez. As crianças nasceram sadias e lindas. Contou com a ajuda da mãe, da avó e de alguns amigos que se revezavam nos cuidados dela e das crianças. Logo que foi possível voltou ao trabalho. Terminou a faculdade de Direito e passou a trabalhar, ainda mais, no escritório de advocacia onde atuava como estagiária. Assumiu diversos casos e era a estrela das causas ganhas. Era procurada por empresários, artistas e diversas pessoas que queriam sua atuação em casos judiciais. Passou a ganhar muito dinheiro. Contratou babá para os filhos, comprou uma casa nova e procurava manter uma ótima qualidade de vida para todos. As crianças cresciam saudáveis e felizes. Sempre que chegava em casa, independente do horário, ia ver os filhos. Cobria-os, cantava canções de ninar e, mesmo que já estivessem dormindo e ela muito cansada, não abria mão desse contato. No entanto, dificilmente podia participar das reuniões da escola, das competições de natação e das apresentações do balé. Nos finais de semana e feriados proporcionava passeios, ou convidava as crianças para brincarem no quintal, para pescarem no lago, mas eles preferiam ficar em frente a televisão ou jogando no celular ou computador. Os gêmeos tinham tudo o que queriam, estudavam nos melhores colégios, frequentavam clubes de recreação e, quando atingiram a idade, cada um ganhou o carro que queria. Ela queria passar mais tempo com eles, no entanto eles tinham seus amigos e não queriam ficar com “a velha”. A menina foi fazer faculdade de medicina e o menino optou pela profissão da mãe. Ela pagou a faculdade as despesas de formatura e quando os filhos já estavam trabalhando e bem encaminhados resolveu se aposentar. Estava precisando de um descanso, o tempo lhe havia imposto sucesso e cansaço.

Ela pensou que agora que os filhos já tinham suas estradas abertas e já os tinha ensinado a caminhar eles poderiam voar e ela poderia estacionar. Avisou a eles que estava decidida a encerrar sua carreira. Foi quando começou o seu inferno. O pai das crianças apareceu, estava falido e queria sua parte nos bens que ela havia conquistado. Os filhos não aceitavam o fato de ela não querer mais trabalhar e, assim, não mais lhes financiar os caprichos. A alegação do pai era que, como eram casados, ele tinha os seus direitos, a alegação dos filhos era que ela sempre fora uma MAE ausente, que lhes faltou carinho e dedicação. Ela fez um levantamento de toda sua trajetória. Quem lhe deu atenção? Quem lhe ofereceu carinho e colo quando ela derramou lágrimas e lágrimas sozinha no quarto? Ela não era vítima, muito menos carrasco! Não iria ficar lamentando, a vida era boa demais para lamentações! Em alguns meses o ex-marido e os filhos receberam, cada um, um envelope. Ela havia feito um testamento, um advogado os manteria a par de suas decisões. Trocou de telefone, arrumou suas malas e entrou em um avião particular. Sua carreira de advogada se encerrara. Seu papel de mãe não foi sucesso, não obteve aplausos, a cortina se fechou e o silencio se fez. Ela estava satisfeita com tudo o que tinha feito. Sabia que tinha dado o seu melhor embora esse melhor não tenha agradado a todos. Suas malas estavam vazias de ressentimentos, de arrependimentos... Carregavam apenas a liberdade do vento.

Desembarcou em uma pequena ilha e foi andar descalça pela areia...

Ione da Silva Grillo
Enviado por Ilda Maria Costa Brasil em 01/02/2024
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