Ilda Maria Costa Brasil, Celeiro da Alma

"Sonhar é acordar-se para dentro." Mario Quintana

Textos


 

O MENINO DE GESSO

 

O Menino ainda está lá

naquele mesmo lugar!

No meio da penteadeira,

No quarto da benzedeira

Que já não pode rezar.

 

Mas o Menino está lá,

Na lembrança, na esperança,

Abençoando e protegendo

Os meus sonhos de criança.

 

Era um menino de gesso

De rosto doce e olhar cheio de luz.

Era o menino Jesus

Que me encarava de frente.

Naquele jeito inocente

de proteger os meus passos,

Levando o mundo nos braços

E uma coroa na fronte.

 

Havia outros santos também!

A Virgem, a Padroeira,

O Pai dos Pobres

e até o Santo Casamenteiro.

Do alto da cristaleira,

Cuidavam de toda a gente.

 

Um Cristo na sala da frente,

Para acolher quem chegava,

Mas o que mais me encantava

Era o Menino de Praga,

No meio da penteadeira.

 

Que dó! Quando o coitadinho,

No pega-pega da gente,

Caiu no chão, de repente

E perdeu um dedo da mão!

A avó não se enfureceu

Mas hoje eu sei o quanto doeu

Ver o Menino no chão!

 

E ele voltou pro lugar

No centro do espelho grande.

Levando o mundo nas mãos

E um terço dependurado,

Para esconder o reparo

Daquele dedo da mão.

 

N'outro tombo,

Nem sei quando!

A cabeça delicada

Desmembrou-se do corpo.

Colado, quebrado e torto,

O menino, não sei como,

Voltou a tomar o seu posto.

 

Do alto da penteadeira,

Benzendo a casa e o campo,

O mesmo encarnado no manto

E a mesma doçura no olhar.

O Menino ainda está lá,

cuidando da velha tapera.

 

Talvez esteja na espera

De ser escudo e abrigo,

Sem renegar a esperança.

Ou quem sabe está mirando,

Protegendo e abençoando

Os meus sonhos de criança.

Vítor Isidro da Silva Bielaski – Membro da Academia de Artes e Ciências e Letras Castro Alves – Porto Alegre/RS.
Enviado por Ilda Maria Costa Brasil em 20/08/2026
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