Ilda Maria Costa Brasil, Celeiro da Alma

"Sonhar é acordar-se para dentro." Mario Quintana

Textos


 

UMA VEZ JULIANA, SEMPRE JULIANA!

 

Ao som do gorjeio dos pássaros, reflito sobre o comportamento dos homens e sobre a vida. Meu olhar anda de um lado ao outro. Buscará respostas? Ora se fixa nas folhas que estão a sua frente: folhas verdes, folhas verde-amarelas, folhas amarelas, folhas marrons; ora se fixa, superficialmente, nos alunos que fazem mais uma avaliação do ano; contudo, ele acaba sempre voltando ao ponto inicial. No tronco de um abacateiro, imponente e perseverante árvore, há fungos e sinais de que enfrentou muitas noites frias e dias de intenso calor.

Os diversos tons das folhas que repousam nos fortes e robustos galhos, úmidos e rejuvenescidos pela chuva da madrugada, trazem pequeninos brotos florais que, certamente, num amanhã, transformar-se-ão em belíssimos frutos que alguns irão apreciar, outros não. Ao admirar este patrimônio frutífero, reconheço que não se encontra num local muito comum. O habitat mais recomendado, seria um grande pomar; no entanto, vive no pátio do Colégio Júlio de Castilhos, entre os prédios A e B. É observador, analítico, gosta da rotina e do convívio com os jovens.

Seu fascínio me fez estabelecer comparações que, para alguns, poderão parecer devaneios mas, para outros, sensíveis como eu, os diferentes tons nada mais são do que metáforas das fases da vida por nós vivenciadas. As folhas verdes, a infância; as verde-amarelas, adolescência; as amarelas, a maturidade e as marrons, a velhice. Os homens nem sempre aceitam essas mudanças! Gostariam que o tempo parasse e a velhice não chegasse!

Quantas histórias teria o velho abacateiro para contar-nos? Com certeza, faltar-lhe-ia tempo para tantos relatos! Inúmeros alunos aqui passaram e muitas emoções foram vividas e presenciadas! Alunos que marcaram por valorizem o contato humano e respeitarem a área verde do Colégio; alunos abertos às opiniões alheias e dispostos a assimilarem novos ensinamentos; alunos atentos à realidade socioeconômica e à política e engajados a movimentos de conservação do meio ambiente; alunos não preocupados com o saber, ainda que transbordassem simpatia e encantos. Esses fizeram do Julinho um maravilhoso espaço para o social: bate-papos, ouvir som, ficar, jogar, enfim, badalar... Uma caminhada gostosa e sem estresse!

A manhã passar preguiçosa! O céu, nublado. As folhas do abacateiro pareciam me observar com cuidado, giravam com calma e sutileza de um lado ao outro. Suas cores, entusiastas e sedutoras... Ao longo dessas horas, os pássaros não interromperam o musical um só instante. Grandiosa sinfonia! A ansiedade e a tristeza dos jovens não os atingiram. Eram, são harmonia, beleza, inocência e pureza! No local, outras árvores próximas da minha musa inspiradora. Algumas vivem momentos especiais; estão entrelaçadas e trocam, baixinho, palavras dóceis e importantes com seus pares e grupos. A naturalidade, a simplicidade e a magia desses seres causam inveja. Entre elas não há mentiras, falsidades, luxúrias e avarezas, e sim, aconchego, ternura, espontaneidade.

Ah, o que teria o velho abacateiro para dizer de mim? Por ventura, seria o medo e o pânico de uma futura aposentada? A tristeza e a dor de uma professora ao ter consciência que em breve, muito em breve, irá se afastar da seiva que a mantém viva, os seus pupilos? Não sei! Não quero pensar! Quero viver e curtir cada segundo com muita paixão!

Duas horas e quinze minutos se passaram e uma ponta de sol surgiu dissimulada entre os galhos e as folhas e, com ela, a esperança de ainda muito realizar na área literoeducacional. Porém, ao mesmo tempo, uma lágrima de saudade "Deste Gigante" embaça meus olhos e sufoca meu coração. Nesses anos que o adotei como extensão de minha casa, despertou-me o gosto de escrever!

Ilda Maria Costa Brasil
Enviado por Ilda Maria Costa Brasil em 10/06/2026
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