Ilda Maria Costa Brasil, Celeiro da Alma

"Sonhar é acordar-se para dentro." Mario Quintana

Textos


 

SONOLENTO BALANÇO

 

“Tardes fagueiras debaixo dos laranjais...” Que criança da minha época não as teve? Horas e horas ficávamos a nos embalar a sombra das laranjeiras. Nossos dias eram repletos de emoções e pautados pelas sensações. Com frequência, deslumbrava-nos com as brincadeiras de meu avô paterno.

O pomar, naquela época, sugeria-nos festa e diversão, muitas vezes, dando brilho àqueles corações infantis. A natureza era cenário vivo para os encontros da meninada e do tão querido Vô Vicente.

Numa fria tarde de inverno, enquanto nos embalávamos, Vovô começou a rir muito. Viramo-nos e lá estava meu irmão dormindo no balanço. Quando acordado, disse:

“– Eu, acordado! Sonolento, o balanço!”

Com muito cuidado, Vovô o retirou do balanço e entregou a minha mãe, que o colocou na cama para dormir. O amor e o carinho eram símbolos de felicidade e de brincadeiras. Infelizmente, esse universo mágico e encantado desmoronou num dezenove de agosto com o falecimento repentino de Vovô.

Aquele pomar, outrora tão mágico e sedutor, de um dia para o outro, perdeu sua beleza e passou a acolher nosso sofrimento. Nosso mundo de sonhos e de fantasias tornara-se um refúgio frio e sombrio. E, “a sombra dos laranjais”, crianças inconsoláveis extravasavam suas tristezas e dores.

A infância, como momento de amor, espontaneidade, beleza e inocência, renasce pelas doces lembranças e pelo carinho que trago de meu avô em meu coração.

Ilda Maria Costa Brasil
Enviado por Ilda Maria Costa Brasil em 08/02/2026
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