Ilda Maria Costa Brasil, Celeiro da Alma

"Sonhar é acordar-se para dentro." Mario Quintana

Textos


 

O TREM DAS PERGUNTAS IMPOSSÍVEIS

 

Cedo partiu o trem, quando a estação ainda estava acordando. Alguns vendedores organizavam as bancas, poucos passageiros caminhavam com pressa e o som metálico das portas se fechando ecoava pelo pátio. O menino caminhava ao lado do avô, segurando sua mão com firmeza. Não era medo; era hábito. Gostava de saber exatamente onde estava.

Subiram no vagão e escolheram dois assentos perto da janela. O menino sempre preferia lugares assim. Dali podia ver o caminho inteiro e acompanhar o movimento dos trilhos, que se repetiam com uma regularidade que o acalmava. O avô sentou ao lado, ajeitou o casaco e abriu o jornal, embora soubesse que não iria muito longe à leitura.

O trem começou a andar devagar. Primeiro passaram as casas próximas à estação, depois os muros grafitados, os terrenos vazios, até que a paisagem se abriu em campos largos. O menino observava tudo em silêncio, atento a cada detalhe, como se o mundo estivesse lhe contando algo importante.

— Vô — disse depois de um tempo —, para onde vai o vento quando a gente fecha a janela?

O avô dobrou o jornal com cuidado. Não respondeu de imediato. Pensou.

— Ele continua ali fora — disse. — O vento não se perde fácil.

O menino assentiu. Aquela resposta parecia suficiente. Voltou a olhar para fora, acompanhando o balanço do trem. No vagão, outras pessoas viajavam quase imóveis. Uma senhora segurava uma bolsa no colo. Um homem dormia com a cabeça encostada no vidro. Um casal cochichava baixo. Ninguém parecia ouvir a conversa.

O trem seguia firme. O menino respirou fundo, como se organizasse os pensamentos antes de falar outra vez.

— Vô — disse —, morrer dói?

O avô sentiu o corpo ficar atento. O silêncio ao redor pareceu mais denso, embora ninguém tivesse se virado. Ele pensou nas palavras, como fazia sempre que o neto perguntava algo assim.

— Eu não sei — respondeu com sinceridade. — Mas sei que viver dói às vezes. E mesmo assim a gente segue.

O menino franziu levemente a testa. Ficou quieto por alguns instantes, olhando o reflexo do próprio rosto no vidro da janela. Não pediu mais explicações. Guardou a resposta, como quem guarda algo que ainda não entende direito.

O trem entrou em um túnel curto. O escuro durou pouco. Quando a luz voltou, parecia igual à de antes.

— Por que as pessoas ficam bravas quando eu faço perguntas? — perguntou o menino. — Eu não faço por mal.

O avô fechou o jornal de vez e colocou-o sobre o colo.

— Eu sei — disse. — Mas nem todo mundo gosta de pensar. Algumas perguntas fazem as pessoas se sentirem desconfortáveis. Outras lembram coisas que elas preferem não olhar.

O menino encostou o rosto no vidro frio. Lá fora, um rio corria ao lado do trilho, seguindo o próprio caminho.

— Eu gosto de perguntar — disse. — É assim que eu entendo melhor.

— E isso é importante — respondeu o avô. — Perguntar não é defeito.

O trem reduziu a velocidade ao se aproximar de uma estação pequena. Um banco de madeira, poucas pessoas esperando, uma placa antiga com o nome do lugar quase apagado. Um relógio pendurado marcava um horário errado.

— Vô — disse o menino —, se o relógio está errado, a hora muda?

O avô sorriu dessa vez sem pensar muito.

— A hora continua passando — respondeu. — Só o relógio é que não sabe disso.

A senhora da bolsa olhou discretamente para eles e depois voltou o olhar para frente. O homem que dormia se mexeu no banco. O trem voltou a ganhar velocidade.

— Vô — o menino continuou —, todo mundo entende o mundo do mesmo jeito?

O avô pensou por um momento.

— Não — respondeu. — Cada um entende do seu jeito.

— Então por que todo mundo acha que só um jeito é certo?

O avô não respondeu de imediato. Apertou levemente a mão do neto.

— Às vezes é mais fácil acreditar nisso — disse. — Dá menos trabalho.

O menino ficou em silêncio. Observava os trilhos desaparecerem sob o trem, um depois do outro, sempre iguais e sempre diferentes. Gostava daquela sensação de continuidade.

— Quando eu crescer — disse por fim —, vou continuar fazendo perguntas.

— Espero que sim — respondeu o avô. — O mundo precisa disso.

O menino assentiu. Não sorriu, mas parecia tranquilo. Sabia que algumas perguntas nunca seriam respondidas. Outras talvez demorassem muito. Mas também sabia que não estava errado por perguntar.

O trem seguiu adiante, carregando malas, histórias e pensamentos difíceis. E, naquele vagão comum, entre uma estação e outra, ficou claro que nem toda pergunta pede resposta. Algumas pedem apenas alguém que fique, escute e não se irrite com o silêncio.

Tiago Dariano Slompo - 19 anos - Membro Efetivo da Academia de Letras Machado de Assis - Porto Alegre/RS
Enviado por Ilda Maria Costa Brasil em 30/01/2026
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