

MORSUS
Há muito tempo, numa época sombria, formou-se um jovem casal. Um casamento arranjado pelos mais velhos, ou "o velho", como a moça se referia ao avô. Ele emitia um som grotesco, afirmando que o tal casamento "era um juramento a um velho amigo". A jovem Vivienne, a doce prometida, era delicada como um vespeiro enfurecido. Rugia como uma leoa que uma promessa arcaica com tais conhecidos não iria tirar o seu futuro de si. Mas, oh, pobre Vivienne... uma indomável senhorita que, apesar de sua bravura, ainda era só uma senhorita, a qual foi acometida por suscetíveis atos disciplinares por uma senhora de boa índole, uma mulher casta que carregava consigo uma varinha de vime com a ponta avermelhada. Vivienne desabrochou perante a sociedade: antes um botão, e agora uma rosa. Já Theodor, um homem bruto sem qualquer inclinação ao romantismo, entretanto era um sujeito bem-apessoado e sem qualquer apego à esposa. A causa de sua falta de interesse, talvez, ou hipoteticamente, devesse-se a Clara, a empregada. Embora, diga-se de passagem, nada era certo, pelo menos aos olhos de Vivienne. Porém, a doce ilusão de uma esposa durou pouco. Logo, a empregada ficou grávida. O escândalo foi tanto que o casal fugiu para a Mansão Halberd e, é claro, alguém levou Clara. Ao alvorecer, quando chegou à casa, Vivienne adentrou pela porta envelhecida, ignorando a cruz caída ao chão, e seguiu adiante, inspecionando. A cada passo que dava, reparava na poeira, nas colunas já gastas, nos vitrais amarelados e nos corredores tão silenciosos que pareciam temer algo, e quem dera que pudessem contar. Ao entardecer, reparou que os quadros e os espelhos estavam todos cobertos com um fino lençol de linho. Vivienne pousou a mão sobre o tecido, puxando-o levemente, revelando o que estava atrás: um quadro, desenhado com tanta destreza que parecia vivo! O retrato captava a beleza intimidante de uma senhorita: ela possuía cabelos negros como a noite, uma pele pálida como giz, mas sua maior beleza eram os olhos extremamente azuis. Vivienne não resistiu à vontade de levar seus dedos e passá-los suavemente pela tela, parando nos lábios da senhorita, que usava um intenso batom vermelho. Quando depositou o indicador sobre o lábio inferior da mulher, notou que a ponta de seu dedo estava da mesma cor, como se a tinta ainda estivesse fresca. Amedrontada com a situação, tratou de cobrir rapidamente o retrato e correu para o quarto, trancou-se e esperou a noite passar. Na manhã seguinte, para sua (in)felicidade, seu marido chegou, juntamente de Clara... que a encarava com escárnio, como se ela fosse a intrusa. Quando a ex-empregada passou por ela, sem nem lhe dirigir a palavra, Vivienne sentiu algo. Quando seu marido fez o mesmo, sentiu as entranhas se revirarem de puro ódio. Então, como um compromisso marcado, um estrondo fez-se presente e, quando se deu por conta, o vitral da sala de jantar estilhaçou-se. Os cacos perfuraram Clara, como um espinho perfura um dedo. Mas um dedo perfumado não dói mais que um coração maltratado. Ao virar rapidamente o olhar, Vivienne reparou que o quadro estava sem o lençol, e agora a dama estava sorrindo para si. Vivienne caminhou até o retrato, como se algo a chamasse para lá. Ao observar o marido carregar a empregada para cima, em direção ao quarto, Vivienne riu em desgosto. Ao anoitecer daquele mesmo dia, a esposa foi dormir no quarto das domésticas, já que o quarto de casal estava estranhamente ocupado. Foram somente algumas horas de sono, mas acordou aterrorizada. A imagem havia estado em seus sonhos, com um vestido vermelho que combinava com seus lábios, sussurrou ao ouvido de Vivienne: "Morsus"... E com seus penetrantes olhos azuis, encarou-a, olhando fixamente aos seus lábios, passando suavemente o dedo sob sua boca. Ela sorriu sarcasticamente: "Você gostou do meu presente?" – indagou. Vivienne só se lembrava vagamente de suas palavras, mas algo havia gravado em sua mente: o nome. Apavorada demais para dormir, levantou-se, pegou o candelabro e caminhou para a biblioteca. Ao passar silenciosamente pelo corredor, olhou temerosa ao quadro: o rosto estava diferente... corrompido. Sua pele estava enrugada, seu cabelo estava esbranquiçado, e seu sorriso estava assustadoramente tenebroso. Foi só o tempo de um suspiro, e o quadro já voltara ao normal. Entretanto, seu olhar agora estava com uma expressão de luxúria, como se fosse ganhar algo. — Foi só minha cabeça — murmurou. Desajeitadamente, ela continuou o seu caminho, quase esquecendo do que procurava: o significado daquela palavra. Ela conhecia aquela palavra, conhecia aquela sonoridade... era latim, a língua em que os papas rezavam. Vivienne então abriu um livro e, no mesmo instante, suas mãos a guiaram para a tal palavra. Morsus — do latim, mordedura, morder. "Ela não é uma senhorita... é uma outra coisa". Não sabia ao certo o que pensar. Estaria ela delirando? Mas esse delírio crescia a cada dia. Os espelhos da casa começaram a se tornar estranhos. Qualquer mínimo reflexo, “aquilo” aparecia. Sempre que Vivienne parava diante de um, mesmo que por poucos segundos, via aquela mesma mulher. De dia, belíssima; já à noite, era uma “ser” saído de um pesadelo. No decorrer dos dias, Vivienne experimentou a aversão do seu então marido, o qual passou a reparar nela apenas para despejar sua raiva. Começou a afirmar descaradamente que aquele incidente era sua culpa, que Vivienne era uma mulher amaldiçoada, que mexia com o maligno... Começou a discipliná-la por qualquer resmungo que passasse por sua mente, qualquer sussurro que alguém pensasse em pronunciar. E a cada dia que se passava, Morsus clamava em seus sonhos, implorando para deixá-la ajudar... Numa certa noite amaldiçoada, Theodor empurrou fortemente a esposa. No mesmo instante em que ela caiu, o quadro foi ao chão. Theodor e Clara prontamente congelaram, como se estivessem vendo um fantasma. Ficaram brancos como a neve, olhavam para o quadro igual uma presa encara o caçador... A moça — ou a coisa — estava com um semblante diferente, com uma expressão de escárnio, e seus olhos estavam sangrando, como se chorasse tristemente pelo que estava vendo, numa mistura de ira e medo. Theodor, enfurecido, queimou o quadro na lareira e subiu as escadas quase como se estivesse fugindo... Naquele momento, jogada ao chão como se não fosse nada, Vivienne suspirou, cansada. Irritada com o que estava vendo, Clara, sem um pingo de empatia, abaixou-se com dificuldade por conta da barriga e colocou-se ao lado da Vivienne... — Por que você não desaparece logo? — cochichou. E assim se foi. Naquela noite, algo em Vivienne quebrou. As últimas esperanças que sustentavam a ideia de uma pequena felicidade acabaram ali. Consumida pela dor, reuniu forças mais uma vez... Levantou-se cambaleando, arrastou-se até os seus aposentos, onde possuía um espelho de madeira encostado na parede. Ajoelhou-se e encarou seu semblante triste no espelho, encostou a cabeça no vidro e murmurou: — Eu aceito. Vivienne sabia que Morsus não sentia pena ou benevolência pela sua situação... o demônio, ou “aquilo” queria sair, e ela conseguiria. O reflexo a encarou sorrindo, e ela sorriu de volta. Seu reflexo se contorcia atrás do vidro. Morsus finalmente emergiu. Inicialmente, com a aparência delicada de uma jovem senhorita. Porém, pouco a pouco, seu sorriso gentil se transformou em algo hediondo, cruel e deformado... Quando Vivienne a viu, sabia que havia feito um acordo. Ela esticou a mão sobre o reflexo, até que as garras da bruxa e os seus dedos se tocassem... E foi naquele momento em que a coisa riu. E então, saiu... Alta, curvada, com olhos tão escuros que pareciam sugar a luz ao redor. Quando a entidade se libertou, Vivienne entrou. Olhando através do espelho, Vivienne observou Morsus caminhar lentamente para a porta. E após, um grito cortou o silêncio da madrugada. Talvez o de Clara, que supostamente ouviu uma voz de sua barriga: — Por que você não desaparece logo? – sussurrou o bebê risonhamente. Espantada, clamou por Theodor, que estava imóvel, e foi naquele instante que o lobo se tornou um cordeiro ao ver o caçador... Morsus estava atrás, segurando um enorme quadro, com um sorriso ainda maior no rosto. Com passos despreocupados, dirigiu-se lentamente à parede, pendurando o retrato. A bruxa encarou o homem, fulminando sua existência, quase como se o amaldiçoasse... E quem diria que ela não estaria fazendo isto? — Arrependa-se — vociferou. — Arrependa-se — bradou. — Ou sofra... — sussurrou. Theodor foi ao chão. Tentou gritar, tentou rezar..., mas Morsus os ignorava como quem ignora a presença de moscas. Ao invés de matá-los, ela simplesmente... saiu. Pela porta da frente. Como se tivesse cumprido um ciclo. E quando Theodor e Clara olharam o quadro, abaixo do retrato de uma moça muito familiar, estava escrito: Clamare. Clamare — do latim, chorar. E ela sorriu. Manuella Grillo - 20 anos
Enviado por Ilda Maria Costa Brasil em 02/11/2025
Alterado em 02/11/2025 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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