

A VOZ DO BAIRRO
Sempre achei curioso aquele buraco na parede da antiga mercearia. Pequeno, mas fundo o bastante para esconder mistérios. O muro, todo rabiscado, exibia nomes, frases e desenhos que o tempo já havia começado a apagar. Eu, Ravi, na época dezesseis anos, morador desde sempre desse bairro que um dia fora bonito, agora via tudo se degradar e, sem perceber, eu fazia parte disso. A verdade é que tudo começou sem que eu, realmente, desse-me conta. No colégio, ser “durão” parecia a única forma de sobreviver. Quem mostrava sentimentos virava alvo de piadas, então aprendi a esconder o que eu realmente era: um garoto calmo, que ainda gostava de desenhar e conversar com os pais nas tardes de domingo. Aos poucos, fui me moldando para caber naquele grupo. Ri de quem não queria rir, imitei atitudes que não eram minhas e encontrei na pichação uma maneira de ser notado. Era como se cada rabisco dissesse: “eu também existo”. Mas, no fundo, eu sabia que aquilo não era coragem, era solidão disfarçada. A cada muro riscado, a cada palavra jogada sem sentido, era como se eu sujasse um pedaço de mim. Eu não pichava só as paredes do bairro, eu pichava a minha própria história. Carregava uma raiva que eu não entendia direito, um vazio que tentava preencher com toda a rebeldia imaginável. Tudo o que eu mais queria era ser visto, ouvido, aceito do jeito que eu era sem precisar me esconder atrás de tinta ou de uma atitude que nunca me pertenceu. Até que, certa tarde dominical, enquanto riscava mais um nome no muro da velha mercearia, ouvi uma voz rouca vazar de um buraco no local: — Por que fazes isso comigo, Ravi? Assustei-me. Ninguém estava por perto. — Quem está aí? — perguntei, com os olhos arregalados. — Sou eu. O bairro. Pai das ruas onde você aprendeu a andar de bicicleta, da praça onde costumava jogar bola… E do muro que agora você machuca. Senti um arrepio. Era impossível, mas aquela voz parecia mesmo vir de dentro das paredes, como se as rachaduras respirassem. — Eu só… não sei — murmurei. — Todo mundo faz isso. — Nem por isso é certo — respondeu a voz. — Você me via quando era pequeno, me amava. Lembro-me do dia em que chegaste de uma longa viagem e começaste a beijar as paredes da tua casa. Estavas com saudade. Agora, passa por mim e só enxergas sujeira. Mas sou o mesmo lugar. Sou feito das lembranças de quem me cuida. Fiquei quieto. Do outro lado, o bairro continuou: — Cada pichação é uma ferida. Cada lixo jogado é um pedaço de mim que morre. E quando morro, você também perde algo. Naquela noite, não consegui dormir. Lembrei-me do riso dos meus pais quando pintamos junto o portão de casa, quando decorávamos os cômodos com enfeites de Halloween, das brincadeiras na calçada, dos amigos que se mudaram, porque “o bairro ficou perigoso”. Senti vergonha. No dia seguinte, voltei à parede. Levei uma lata de tinta branca.— Vim te ajudar — falei para o buraco. Uma sensação pairou sobre o meu corpo. Pareceu que o bairro sorriu para mim. Enquanto pintava, percebi que não era só o muro que eu estava limpando. Era a mim mesmo, a minha alma. E, de repente, a solidão parecia menor. Na escola, tentei puxar assunto com meus colegas, pedir desculpas, ser diferente. Não foi fácil, mas, aos poucos, fui sendo ouvido. Hoje, passo pela mercearia e o buraco ainda está lá, quieto. Às vezes, acho que escuto um leve sussurro, quase como um agradecimento. Aprendi que cuidar do lugar onde se vive é também cuidar do que se é. Porque o bairro não é só o cenário da nossa história, ele é parte de nós. E se ele fala, é porque, no fundo, ainda acredita que a gente pode mudar. Tiago Dariano Slompo – 20 anos
Enviado por Ilda Maria Costa Brasil em 02/11/2025
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