Ilda Maria Costa Brasil, Celeiro da Alma

"Sonhar é acordar-se para dentro." Mario Quintana

Textos


 

HERA VIRGEM

 

Verão de 2001, Laura era uma jovem divertida, alegre, falante, cabelos negros, magra, olhos castanhos escuros e tez morena. No verão, o sol bronzeava mais a sua pele. Na flor da adolescência, em seus dezessete anos, decidiu fazer algo diferente, afinal era seu último verão como menor de idade, queria transgredir. Trabalhando, só podia dormir até tarde e sair à noite, nos fins de semana. Algumas ligações ela fez, combinou, pediu autorização aos pais e tudo estava acertado. Recolheu alguns pertences, nada muito especial; era linda, estilo despojado, nada de patricinha. Vestia jeans, camisetas, tênis e o único acessório era um brinco de ouro, ganho de sua avó quando bebê.

Mochila pronta, despediu-se dos pais e rumou à estação rodoviária para embarcar rumo à Santa Catarina, à Praia dos Ingleses, em Florianópolis, onde moravam seus tios paternos e seu primo querido Daniel, parceiro de todas as horas, com um ano a mais que ela. Laura viajou por toda noite, desembarcou na rodoviária de Florianópolis e aguardou seu primo que foi buscá-la de carro. Daniel sempre foi um rapaz calmo; porém, junto com Laura tornava-se irreconhecível. A alegria e o entusiasmo da prima contagiava Dani a ponto de fazer coisas que sozinho jamais sonharia.

O trajeto todo foi de muito papo, gargalhadas e planos para quando a noite caísse. Já, na casa dos tios, beijos e abraçou cada um, com saudade e carinho. Laura gostava deles, eles gostavam dela, gostavam de como seu filho ficava feliz ao lado da prima. Passaram à tarde na praia, Laura com protetor solar trinta apenas no rosto e Dani, lambuzado de fator sessenta. Apesar de morar no litoral, não tinha o hábito de frequentar as areias da praia, tão pouco quarar ao sol. Daniel mais parecia um lorde inglês, pele muito clara e corpo esguio, contrastando com o corpo curvilíneo e bronzeado de Laura. À noite, jantaram com a família; depois, tomaram banho e foram encontrar os amigos da faculdade de Daniel, que ficaram surpresos, ele não frequentava festas, só quando intimado pelos colegas e bixos da faculdade. Uma das colegas, Verônica, ofereceu-lhes cerveja, que Laura aceitou.

– Você vai beber? – perguntou Daniel.

– Sim, estamos numa festa, vamos aproveitar. – respondeu a jovem sorrindo e dançando.

Ao virar-se, avistou um rapaz vindo em sua direção, paralisou admirando aquele Deus Grego: alto, porte atlético, cabelos compridos e cacheados em tom castanho claro, lábios carnudos e olhos verdes penetrantes. Quando já estava bem perto, Roberto, mais conhecido como Beto, estende os braços e abraça Daniel que está ao lado da prima, até então paralisada.

– E aí brother, tudo beleza? – pergunta Beto enquanto abraça o amigo.

– Tudo Beto. Deixe te apresentar minha...

Neste momento Laura interrompe quase sem ar e diz: 

– Sei quem você é: É “Zeus”, veio direto do Olimpo para esta festa!

– Sim! E você deve ser “Hera”, minha futura esposa, que procuro há milênios. Sou Roberto – respondeu sorrindo, trazendo Laura para perto de seu corpo enquanto lhe beijava a face.

– Sou Laura, mas esta noite serei sua “Hera”, retribuindo o beijo e o abraço.

A conversa continuou animada com mais colegas chegando e juntando-se ao grupo, enquanto as horas passavam anunciando a madrugada. No espaço entre Laura e Beto só passava uma linha de costura e assim ficaram por muitas horas, até Beto convidá-la para sentarem-se no jardim, o que foi prontamente aceito pela jovem. Conversaram amenidades, contaram um pouco de suas histórias de vida e de repente o silêncio que antecede um beijo. A jovem encabulou e sem pensar disse:

– Minha mãe não gosta de rapazes com cabelos compridos.

– Minha mãe também não gosta de garotas com cabelos curtos, mas eu gosto – respondeu Beto segurando o rosto de Laura para, em seguida, beijá-la.

Um beijo profundo e demorado, que os conduziu ao Olimpo. Ficaram ali no mesmo jardim entre conversas, risos, beijos e abraços. De tanto em tanto um carinho mais audaz, que Laura sutilmente reprimia. O céu clareou, anunciando o fim da noite, quando Dani chamou a prima para retirarem-se da festa para casa. Um beijo quente, longo e molhado selou a despedida com a promessa de outro encontro. Os primos dormiram o domingo todo, hora da jovem Laura voltar a Osório, sua cidade no Rio Grande do Sul. Desta vez nem os Deuses conseguiram burlar o destino, Laura não conseguiu mais voltar à Praia dos Ingleses no mês de janeiro encontrar seu “Zeus”. Foi transferida de setor e ficou impossibilitada de realizar viagens de fins de semana.

O mês passou lento demais e a jovem estava em contagem regressiva para chegada do carnaval em fevereiro. Fevereiro chegou, a menina saudou Iemanjá em sua cidade, fez seu pedido, mesmo sem rio, mas com a cabeça e o coração voltados para próxima semana. Semana do Carnaval. Desta vez arrumou sua mala com mais esmero, perfume, sandália, short jeans, blusa com rendas e um brinco novo. Como de costume Daniel foi buscá-la na rodoviária, mas antes mesmo de abraçar o primo perguntou por Roberto, mas vendo o olhar do primo, pressentiu algo ruim. Ele não estava na ilha.

O trajeto foi em silêncio. Dani quebrou aquela atmosfera triste, alegando que eles iriam se divertir, que aproveitariam o máximo os dias de carnaval, que até inscreveu os dois em um bloco de rua. Aquelas palavras foram suficientes para trazer a Laura de sempre à vida alegre e divertida de volta. Fizeram mil planos, até combinaram ir a Barra da Lagoa atrás do Baiacú, um bloco de rua muito famoso na região. Dani comprou patuás, purpurina prateada e dourada para alegrar a prima querida e quem o ajudou na escolha foi sua colega de faculdade, que era quase sua namorada, a bela Verônica. O carnaval une os casais.   

Os amigos combinaram de fazer um “esquenta” na casa de Dani e depois saírem todos juntos para o centro de Ingleses em busca das folias do Carnaval. O gramado da casa do rapaz mais parecia quadra de escola de samba. Os rapazes vestiam camisetas estampadas e de cor verde, todos iguais; as moças com a mesma estampa; porém, todas de miniblusas pretas, shorts jeans e enfeites por todo o corpo, variando com a vaidade criatividade de cada uma. Laura, no início, olhava para longe como quem procura alguém; mas, logo voltava à folia. Depois desistiu. De repente, foi abraçada por trás.

– Para Dani, não consigo nem respirar – disse a jovem acreditando ser seu primo.

Os olhares em torno alertavam que não. Roberto não viajou com a família, desmarcou sua passagem quando soube que sua “Hera” passaria o carnaval em Ingleses. A jovem consegue se soltar e vira-se; desta vez, foi preciso que Beto a segurasse para não cair de susto, surpresa e feliz:– Vim buscar minha esposa “Hera” e levá-la para o Olimpo morar comigo – disse Beto olhando nos olhos de Laura. O “esquenta” seguiu mais animado até a hora de saírem. Pegaram os carros e juntos saíram da casa de Daniel, rumo ao centro da cidade, todos viraram à esquerda, somente Beto dobrou à direita.

– Acho que você errou o caminho – disse Laura ao Beto.

– O carnaval é para esquerda, mas o Olimpo é por aqui – respondeu “Zeus” para “Hera”.

O casal apaixonado seguiu rumo à casa de Beto, vazia pela ausência dos pais em viagem. Beto abriu um espumante, serviu as duas taças e entregou uma para Laura, brindaram, beijaram-se e beberam. Deslocaram-se para o jardim, perto da piscina, lá havia uma tenda em madeira rústica, coberta com tule dos lados e pelo teto, no entorno, lamparinas de madeira, vidro e velas acesas. Dentro da tenda uma espécie de cama, com vários almofadões em tecido de algodão cru, combinando com estilo rústico do espaço. Os jovens Deuses ali se aconchegaram e ficaram por minutos, deitados lado a lado, admirando o céu que insistia em aparecer entre uma faixa e outra do tule, quando a brisa acariciava o Olimpo em festa. Beto abraçou sua Deusa beijou-a loucamente e entre juras de amor os Deuses perderam a noção do tempo e do mundo. Beto com suas mãos, segura o sutiã de Laura para abri-lo, ouve a jovem sussurrar em seu ouvido: – Sou virgem!

O rapaz tira as mãos do sutiã da jovem e dá-lhe um abraço mais apertado com um beijo suave e amoroso: – Não farei nada. Não sabia, tudo bem, vamos ficar aqui juntinhos. Ela, com a decisão para si, beija seu Deus Grego, pega suas mãos e as conduz até o fecho do sutiã em consentimento absoluto.

Beto entendeu. Abriu o sutiã de Laura e percorreu com suas mãos as costas nuas de sua Deusa. Chegando aos ombros, seus dedos leves desceram as alças, finalizando a queda da peça. Laura fez o mesmo. Assim foi até os jovens Deuses ficarem completamente nus. Zeus foi um Deus carinhoso, atencioso e delicado, como um jardineiro cuida do botão de sua rosa, com sua virgem Hera. A jovem Laura entregou sua virgindade a “Zeus”, estava feliz pela decisão e pelo homem que escolheu para este ato precioso ao universo feminino. Amaram-se por quatro noites e três dias, o Olimpo estava em festa e fora só deles durante o carnaval. A realidade conspirou a favor dos jovens Deuses. Despediram-se com a promessa de um reencontro em breve e compromisso eterno.

Lorena de Souza Fontoura - Acadêmica Efetiva e Vice-Presidente da Academia de Artes, Ciências e Letras Castro Alves e Acadêmica Benemérita da Academia de Letras Machado de Assis e de Porto Alegre/RS.
Enviado por Ilda Maria Costa Brasil em 31/10/2025
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